21 de July de 2022 em Cultura

Conheça a equipe responsável pela curadoria da 73ª edição do Salão de Abril

Os curadores são pesquisadores em artes visuais, artistas e historiadores. Formam a equipe de avaliação: Ué Prazeres, Jared Domício e Rafael Domingos


Salão de Abril

“O formato de salão de artes propõe um número específico de participantes, cabe aos curadores estabelecer um olhar sobre a produção que apresente um conjunto diverso de trabalhos”, afirma o cearense Jared Domício, um dos curadores da 73ª edição do Salão de Abril, junto à pernambucana Ué Prazeres e o paulista Rafael Domingos. A mostra de artes visuais faz parte do calendário de ações da Prefeitura de Fortaleza, promovida pela Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) e pelo Instituto Cultural Iracema (ICI). A edição de 2022 rememora o centenário de um dos marcos culturais brasileiros, a Semana de Arte Moderna, também conhecida como Semana de 22.

Marco histórico, polêmico e que, nesta homenagem, receberá uma abordagem diferenciada, como salienta a curadora Ué Prazeres: “A temática nos requer, enquanto equipe curatorial, um cuidado minucioso para não reproduzirmos os mitos e fundamentos de certas produções modernas que foram criadas e difundidas por e para um grupo muito específico do sudeste do Brasil”, contextualiza. 

A seleção das obras

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Além dos critérios estabelecidos no edital para a seleção das 38 obras que farão parte da edição 2022 do Salão de Abril, os curadores apontam outros critérios relevantes para o sucesso deste tipo de mostra de arte, que é grandiosa por sua natureza. Prazeres, por exemplo, considera a viabilidade dos projetos diante da estrutura física do espaço expositivo: “por inúmeras vezes, pude observar trabalhos que, no âmbito conceitual, tinham muita potência, mas, quando olhávamos a viabilidade da proposta, observavam-se muitas pontas soltas e, até mesmo, falta de conhecimentos técnicos que são fundamentais na execução de qualquer projeto”. 

Jared Domício dá destaque ao formato da mostra. “Ao contrário do que muita gente pensa, um salão não está relacionado com um aval de trabalhos bons ou ruins, até porque com a quantidade de projetos inscritos, em cada salão, seria até ingênuo pensar que ótimos trabalhos não ficam de fora”. 

Os diferentes olhares para o processo de seleção dos trabalhos é um dos marcos desta edição. Ué aponta a viabilidade de execução da proposta em diálogo com o espaço expositivo onde será montada. Já Domício explica que o formato de “salão” é um recorte representativo das propostas inscritas, enquanto Rafael Domingos, por sua vez, aponta a importância de apresentar diferentes olhares no processo curatorial. 

“Para mim, o mais importante é a diversidade e a pluralidade. Há critérios estabelecidos, que são incontornáveis, como a coerência conceitual, a qualidade formal e poética, e o caráter inovador dos trabalhos. Somado a isso, considero fundamental que a curadoria assegure uma seleção plural, em todos os sentidos, que seja capaz de apresentar ao público não apenas um, mas muitos perfis diferentes”, comenta Rafael.

Desafios e oportunidades no processo de curadoria

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Para Domício, que é artista cearense, o Salão de Abril oferece uma oportunidade de visualizar o que anda sendo produzido no cenário das artes visuais por uma parcela significativa de artistas, questões mais presentes, técnicas mais utilizadas e como os artistas estão se apresentando publicamente. Sobre o contexto local, ele observa mudanças. “Nos últimos 20 anos, aproximadamente, assistimos a uma mudança significativa do cenário das artes em Fortaleza. Editais específicos para a área, faculdades surgindo e um público bem maior discutindo e produzindo arte. Muitas demandas foram criadas e ainda buscamos nos ajustar a essas mudanças. Criar um recorte representativo da produção de arte para esse cenário é o desafio maior desse salão”. 

Apontando a potência da arte cearense e sua produção destacada a partir do material inscrito nesta edição, Domingos acredita que a seleção por si só já é um desafio. Porém, considera que a maior dificuldade no processo está na criação de uma experiência expográfica capaz de, ao mesmo tempo, promover a riqueza e a pluralidade da produção artística e convidar o público a participar, considerando os últimos anos de distanciamento e isolamento social. “Quem efetivamente constrói a linha poética da exposição são os artistas, por meio das obras selecionadas. Nosso papel, o papel da curadoria, é promover e potencializar essa linha poética. E isso é, sem dúvida, um grande — porém estimulante — desafio.”, complementa o historiador. 

Saiba mais sobre os curadores

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Ué Prazeres é artista e curadora independente de Paulista (Pernambuco), desenvolve pesquisa em artes visuais sob o eixo decolonial e perspectivas da América Latina, é acadêmica de Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná, foi crítica de arte no circuito universitário da Bienal de Internacional de Curitiba e já realizou inúmeras exposições em diferentes localidades do país. “Me ponho a olhar com bastante atenção as produções contemporâneas e as diversas formas que o campo da imaginação política tem se apresentado, seja enquanto temas ou linguagens.”, afirma a também curadora, que completa: “trago em meus trabalhos na área da curadoria um olhar bastante atento às produções ditas dissidentes, pois acabam sendo categorizadas uma enorme gama de diversidades em detrimento de uma produção homogênea ou mesmo de fundamento euro-brasileira”.

Prazeres faz apontamentos sobre como sua atuação dialoga com o Salão de Abril. “A existência do Salão é de tamanha importância para o nosso cenário cultural, resistindo a mais de setenta edições em um País que constantemente dificulta o acesso ao direito à cultura. Tendo em vista todo esse cenário complexo, acredito que a presença de uma curadora travesti não-binária é bastante simbólica. Quando olhamos para estrutura política do estado brasileiro completamente apático às políticas de morte (necropolítica) disseminadas aos corpos trans ou que apresentam uma outra gramática de vida em seus modos diversos de ser e de estar no mundo. Contudo, é importante ressaltar que em 73 edições eu ainda seja a primeira curadora travesti a assinar uma curadoria no Salão de Abril, quiçá a primeira a assinar uma curadoria de salão de arte no Brasil.”

Jared Domício é artista visual do Ceará, tem interesse nas relações entre arte e natureza no meio urbano e atualmente pesquisa vertentes do meio digital, é mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará, já expôs em inúmeras instituições nacionais e internacionais e, inclusive, foi premiado no 61º Salão de Abril (2010). 

“Minha história como artista é vinculada ao salão. Já fui recusado inúmeras vezes, aceito outras tantas. Fui coordenador de artes visuais em 2015 na Prefeitura e minha primeira tarefa foi fazer o edital do Salão de Abril. Sendo jurado tenho a chance de olhar mais uma vez para o salão. Mas agora por outra via, entender mais um dos lados desse evento”, comenta o artista.

Rafael Domingos é o terceiro curador desta edição do Salão. Ele é historiador e educador. Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo, é membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Afro-América e coordenador do Núcleo de Acervo e Pesquisa do Theatro Municipal de São Paulo. Foi professor da educação formal, educador popular e arte-educador em instituições culturais, coordenou o Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil. 

“A arte é também um dispositivo de apreensão das contradições do mundo, e uma forma de imaginar outros mundos possíveis e impossíveis.Para mim, essa é também uma definição de ‘educação’, e aqui estes dois caminhos convergem”, afirma Domingos. Ele também tem dedicado sua vida à luta antirracista, em pesquisas que possam contribuir para uma melhor compreensão da desigualdade do país e como ativista em grupos de atuação específica, como define.

“O racismo é como um nó na nossa formação social. Um nó que precisa ser desatado muitas e muitas vezes, em camadas. Todos nós devemos ter um compromisso ético e político com a luta antirracista, essa é uma condição para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Memória, arte, educação, democracia — penso que estas palavras constituem a centralidade da minha atuação profissional.”, define o curador.

Conheça a equipe responsável pela curadoria da 73ª edição do Salão de Abril

Os curadores são pesquisadores em artes visuais, artistas e historiadores. Formam a equipe de avaliação: Ué Prazeres, Jared Domício e Rafael Domingos

Salão de Abril

“O formato de salão de artes propõe um número específico de participantes, cabe aos curadores estabelecer um olhar sobre a produção que apresente um conjunto diverso de trabalhos”, afirma o cearense Jared Domício, um dos curadores da 73ª edição do Salão de Abril, junto à pernambucana Ué Prazeres e o paulista Rafael Domingos. A mostra de artes visuais faz parte do calendário de ações da Prefeitura de Fortaleza, promovida pela Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) e pelo Instituto Cultural Iracema (ICI). A edição de 2022 rememora o centenário de um dos marcos culturais brasileiros, a Semana de Arte Moderna, também conhecida como Semana de 22.

Marco histórico, polêmico e que, nesta homenagem, receberá uma abordagem diferenciada, como salienta a curadora Ué Prazeres: “A temática nos requer, enquanto equipe curatorial, um cuidado minucioso para não reproduzirmos os mitos e fundamentos de certas produções modernas que foram criadas e difundidas por e para um grupo muito específico do sudeste do Brasil”, contextualiza. 

A seleção das obras

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Além dos critérios estabelecidos no edital para a seleção das 38 obras que farão parte da edição 2022 do Salão de Abril, os curadores apontam outros critérios relevantes para o sucesso deste tipo de mostra de arte, que é grandiosa por sua natureza. Prazeres, por exemplo, considera a viabilidade dos projetos diante da estrutura física do espaço expositivo: “por inúmeras vezes, pude observar trabalhos que, no âmbito conceitual, tinham muita potência, mas, quando olhávamos a viabilidade da proposta, observavam-se muitas pontas soltas e, até mesmo, falta de conhecimentos técnicos que são fundamentais na execução de qualquer projeto”. 

Jared Domício dá destaque ao formato da mostra. “Ao contrário do que muita gente pensa, um salão não está relacionado com um aval de trabalhos bons ou ruins, até porque com a quantidade de projetos inscritos, em cada salão, seria até ingênuo pensar que ótimos trabalhos não ficam de fora”. 

Os diferentes olhares para o processo de seleção dos trabalhos é um dos marcos desta edição. Ué aponta a viabilidade de execução da proposta em diálogo com o espaço expositivo onde será montada. Já Domício explica que o formato de “salão” é um recorte representativo das propostas inscritas, enquanto Rafael Domingos, por sua vez, aponta a importância de apresentar diferentes olhares no processo curatorial. 

“Para mim, o mais importante é a diversidade e a pluralidade. Há critérios estabelecidos, que são incontornáveis, como a coerência conceitual, a qualidade formal e poética, e o caráter inovador dos trabalhos. Somado a isso, considero fundamental que a curadoria assegure uma seleção plural, em todos os sentidos, que seja capaz de apresentar ao público não apenas um, mas muitos perfis diferentes”, comenta Rafael.

Desafios e oportunidades no processo de curadoria

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Para Domício, que é artista cearense, o Salão de Abril oferece uma oportunidade de visualizar o que anda sendo produzido no cenário das artes visuais por uma parcela significativa de artistas, questões mais presentes, técnicas mais utilizadas e como os artistas estão se apresentando publicamente. Sobre o contexto local, ele observa mudanças. “Nos últimos 20 anos, aproximadamente, assistimos a uma mudança significativa do cenário das artes em Fortaleza. Editais específicos para a área, faculdades surgindo e um público bem maior discutindo e produzindo arte. Muitas demandas foram criadas e ainda buscamos nos ajustar a essas mudanças. Criar um recorte representativo da produção de arte para esse cenário é o desafio maior desse salão”. 

Apontando a potência da arte cearense e sua produção destacada a partir do material inscrito nesta edição, Domingos acredita que a seleção por si só já é um desafio. Porém, considera que a maior dificuldade no processo está na criação de uma experiência expográfica capaz de, ao mesmo tempo, promover a riqueza e a pluralidade da produção artística e convidar o público a participar, considerando os últimos anos de distanciamento e isolamento social. “Quem efetivamente constrói a linha poética da exposição são os artistas, por meio das obras selecionadas. Nosso papel, o papel da curadoria, é promover e potencializar essa linha poética. E isso é, sem dúvida, um grande — porém estimulante — desafio.”, complementa o historiador. 

Saiba mais sobre os curadores

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Ué Prazeres é artista e curadora independente de Paulista (Pernambuco), desenvolve pesquisa em artes visuais sob o eixo decolonial e perspectivas da América Latina, é acadêmica de Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná, foi crítica de arte no circuito universitário da Bienal de Internacional de Curitiba e já realizou inúmeras exposições em diferentes localidades do país. “Me ponho a olhar com bastante atenção as produções contemporâneas e as diversas formas que o campo da imaginação política tem se apresentado, seja enquanto temas ou linguagens.”, afirma a também curadora, que completa: “trago em meus trabalhos na área da curadoria um olhar bastante atento às produções ditas dissidentes, pois acabam sendo categorizadas uma enorme gama de diversidades em detrimento de uma produção homogênea ou mesmo de fundamento euro-brasileira”.

Prazeres faz apontamentos sobre como sua atuação dialoga com o Salão de Abril. “A existência do Salão é de tamanha importância para o nosso cenário cultural, resistindo a mais de setenta edições em um País que constantemente dificulta o acesso ao direito à cultura. Tendo em vista todo esse cenário complexo, acredito que a presença de uma curadora travesti não-binária é bastante simbólica. Quando olhamos para estrutura política do estado brasileiro completamente apático às políticas de morte (necropolítica) disseminadas aos corpos trans ou que apresentam uma outra gramática de vida em seus modos diversos de ser e de estar no mundo. Contudo, é importante ressaltar que em 73 edições eu ainda seja a primeira curadora travesti a assinar uma curadoria no Salão de Abril, quiçá a primeira a assinar uma curadoria de salão de arte no Brasil.”

Jared Domício é artista visual do Ceará, tem interesse nas relações entre arte e natureza no meio urbano e atualmente pesquisa vertentes do meio digital, é mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará, já expôs em inúmeras instituições nacionais e internacionais e, inclusive, foi premiado no 61º Salão de Abril (2010). 

“Minha história como artista é vinculada ao salão. Já fui recusado inúmeras vezes, aceito outras tantas. Fui coordenador de artes visuais em 2015 na Prefeitura e minha primeira tarefa foi fazer o edital do Salão de Abril. Sendo jurado tenho a chance de olhar mais uma vez para o salão. Mas agora por outra via, entender mais um dos lados desse evento”, comenta o artista.

Rafael Domingos é o terceiro curador desta edição do Salão. Ele é historiador e educador. Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo, é membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Afro-América e coordenador do Núcleo de Acervo e Pesquisa do Theatro Municipal de São Paulo. Foi professor da educação formal, educador popular e arte-educador em instituições culturais, coordenou o Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil. 

“A arte é também um dispositivo de apreensão das contradições do mundo, e uma forma de imaginar outros mundos possíveis e impossíveis.Para mim, essa é também uma definição de ‘educação’, e aqui estes dois caminhos convergem”, afirma Domingos. Ele também tem dedicado sua vida à luta antirracista, em pesquisas que possam contribuir para uma melhor compreensão da desigualdade do país e como ativista em grupos de atuação específica, como define.

“O racismo é como um nó na nossa formação social. Um nó que precisa ser desatado muitas e muitas vezes, em camadas. Todos nós devemos ter um compromisso ético e político com a luta antirracista, essa é uma condição para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Memória, arte, educação, democracia — penso que estas palavras constituem a centralidade da minha atuação profissional.”, define o curador.